Repetição

No fim do dia anterior, eu havia pego um livro e lido para eles do lado de fora da sala. No meio da história, havia uma ilustração que, para uma criança, soou muito assustadora. Na hora ele saiu correndo. Depois voltou. Quando terminou a história, pediu para ler de novo e, quando chegou naquela página, correu de novo. Virou uma brincadeira! Que depois da história lida pela segunda vez, foi aceita por outra criança que pegou o livro da minha mão, abriu na página assustadora e saiu correndo atrás do menino gerando grandes risadas!

No fim do dia seguinte, pego um outro livro para ler e inicio a roda dentro da sala. Ao ver que a leitura iria começar, o menino pede:

– Podemos ir lá fora?

– Você quer fazer a roda lá fora?

– Sim, porque se eu ficar com medo, posso correr de novo!

À procura de uma escola…

A mãe me relata que ele acordou às 4 horas da manhã, ansioso com a volta para a escola. Chegou com os olhos atentos procurando os colegas. A prima, que é da mesma turma e já estava na sala antes dele, veio correndo lhe dar uma abraço. A mãe dele vetou de longe e lhe disse:

-Não pode abraçar! Cumprimenta assim com a mão! – e mostrou uma forma de cumprimentar tocando as mãos fechadas.

[…]

-Cadê meus amigos? – ele me perguntou após dar uma olhada na sala quase vazia.

-Nem todos estão aqui hoje. – respondi.

-E o Sa, vem hoje?

-Sa mudou de escola. Foi para o primeiro ano.

-E o Bru?

-Também mudou…

[…]

-A gente pode desenhar no rosto? – me perguntou.

-Acho que não dá, por causa da máscara… E também porque chega muito perto – respondi. – A gente podia pintar as mãos… ah, mas toda hora tem que lavar e vai sair logo…

[…]

Entramos no refeitório para o jantar, mas ele não quis comer. Abaixou a cabeça na mesa e ficou ali quietinho. De repente, levantou e saiu andando em direção à nossa sala sem nada dizer. Fui até a porta do refeitório e o chamei. Nada. Vi que ele foi até sua mochila e se sentou ao lado dela. Chamei novamente. Abaixou a cabeça. Parecia que chorava.

Caminhei até ele e perguntei:

-O que aconteceu?

-É que eu estou com saudades…

-Saudades do quê?

-Do meu primo Biel.

-E onde ele está?

-Na minha casa.

-Mas agora estamos aqui na escola… Por que você saiu do refeitório? – perguntei.

-É que eu não queria comer…

-Mas volta lá pra ficar perto da gente… – pedi.

Voltamos.

[…]

-Nós vamos poder ir na piscina? – me perguntou.

-Agora ainda não pode por causa do covid… – respondi.

No dia seguinte, ele fez a mesma pergunta para outra professora e, ao ouvir uma resposta semelhante à minha, desabafou sozinho:

-Quando o covid acabar a escola vai voltar!

[…]

No parque, mexia na areia pensativo e depois de um tempo me fala:

– Não é que a gente só veio aqui matar a saudade. Ainda não é escola.

[…]

Ele iniciou na escola há 3 anos. Viveu, no primeiro ano, o auge da agitação de uma turma com 22 meninos!!! No segundo ano, um começo de ano na escola e o restante com outras experiências fora daquele espaço. Neste terceiro ano, um começo distante e remoto. Talvez ao acordar às 4 da manhã imaginava retornar para aquela escola de 2019. Aquela que ele conhecia, mas não existia mais como ele a guardava na recordação.

Na quarta-feira, encontrou algo que o cativou. Algo novo, já que tudo de suas lembranças da escola estava fora de seu alcance naquele momento. Ele conheceu o escorregador de um brinquedo novo, que escorrega fazendo uma ligeira onda. Ele ficou o quanto pôde subindo e descendo daquele escorregador. Criando novas conexões com aquele espaço que ele já conhecia tanto.

Despedida

Após uma boa semana juntos, eu pensava que tinha que anunciar a despedida porque eles ficariam duas semanas em casa por causa do revezamento de 35% no atendimento das crianças de cada turma. Na sexta-feira, já cheguei anunciando como seria, preparamos uma caixinha com materiais e recolhemos tesouros da natureza que encontramos pelos nossos caminhos para levarem para casa. Tudo de forma muito tranquila e entendi que a dinâmica estava muito entendida por eles.

Após a brincadeira no parque, pedi que guardassem os brinquedos e uma criança veio me pedir que não desmanchasse uma enxada que havia montado para sua brincadeira de plantação. Respondi que não poderia garantir que não desmanchassem pois outras crianças estariam na escola na próxima semana e poderiam querer montar outras coisas com o brinquedo, mas que ele poderia montar outra quando ele retornasse.

-Vai ter outras crianças aqui? – ele perguntou.

-Sim. Vocês ficarão em casa e estarão outras crianças aqui.

-Com você? – ele me encarou, como se tivesse ligado tudo.

-Sim…

Ele não disse mais nada e seguiu em direção à caixa de brinquedos chorando baixinho. Guardou a sua enxada com todo cuidado e ajudou a levar a caixa para a sala como se levasse uma preciosidade.

Opinião suspeita

Cada criança fez uma pintura num papel craft grande. Por sugestão da minha orientadora pedagógica, após a secagem, coloquei os trabalhos na parede ao lado da sala. A mãe de uma criança, ao buscá-la, recebeu a filha empolgada com sua pintura e a dos colegas.Ficou muito bonita sua pintura, filha! – a mãe falou.

-Qual você gostou mais? – respondeu imediatamente a filha.

A mãe olhou e, após alguns segundo de hesitação, respondeu:

-De cada um eu gostei de uma coisa…

-Ah! Já sei! É porque eu sou sua filha, né? – respondeu a criança, correndo para outro lado, dando a conversa por encerrada.

Felicidade

Segunda fase do retorno presencial. Três crianças na sala. Duas em uma mesa brincam com um jogo de encaixe. Na outra mesa, uma menina toca um xilofone. Um menino da outra mesa ouve e me pergunta:

-De onde vem essa música? Foi você quem colocou?

Mostro a ele que vem do instrumento que a menina está tocando. Ele segue nas suas montagens dançando com a cabeça ao ritmo da música que está sendo tocada. Um pouco depois, a menina começa a cantar seguindo sua melodia:

-Que felicidade estar aqui no Agostinho…

O menino na outra mesa segue iniciando um dueto:

-Felicidade! Felicidade!