Caminho que se faz ao caminhar

Levei uma caixa de carrinhos para a frente da escola e desenhei uma pista no chão com giz.

Vi brincava ao lado com um carrinho. Parei na sua frente, ofereci um giz e sugeri que desenhasse no muro. Ele aceitou o giz e começou a desenhar no chão. Passava o carrinho por cima dos riscos desenhados. Entendi que ele estava desenhando também uma pista para seu carrinho. Só observei de longe. Depois ele levantou e foi riscando em cima do muro, o carrinho ia atrás, seguindo o caminho por ele desenhado. Foi… Voltou…

Vi não queria seguir pelo caminho pronto. Queria fazer seu próprio caminho.

E eu lembrei da poesia: o caminho se faz ao caminhar…

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O registro como lembrete

Hoje a turma fez um passeio com a equipe de educadores do período da manhã (eu sou do período da tarde). Ontem, na roda final, conversamos sobre como seria o passeio, para que pudessem saber como seria a manhã e assim também controlarem um pouco da ansiedade.

Fomos conversando e fui marcando na lousa passo-a-passo da nossa conversa:

1. Ônibus (e conversamos tudo sobre o ônibus)

2. Piquenique

3. Passeio ao bosque

4. Ônibus (volta)

5. Almoço na escola

Hoje, quando chegamos, falei que a roda inicial seria para falar sobre o passeio.

Sa levanta a mão e diz:

– O passeio deu tudo certo. A gente chegou e já sabia o que ia fazer. Foi bom deixar tudo marcadinho na lousa, porque aí a gente chegou, olhou e já sabia o que ia acontecer.

Podemos só uma hoje?

Falando sobre sentimentos: alegria, tristeza, medo… Cada um contou do que tem medo. Lemos a história “Chapeuzinho Amarelo”, do Chico Buarque. A partir da história, pensei que pudéssemos trabalhar as superações desses medos através de histórias. Propus que cada um inventasse uma história envolvendo seus medos.

A cada dia, mas nem todos os dias, fazemos um sorteio e uma criança inventa sua história.

Tem sido momentos prazerosos e trabalhosos! As crianças aguardam ansiosas seu dia de contar. Algumas, como a Sa, ouvem com atenção e cobra coerência dos colegas; outras ajudam na narrativa, fazem perguntas, preenchem lacunas.

Eu também estou ansiosa, a turma é numerosa, quero que todos possam contar logo. Então, nesta semana, quando uma criança terminou sua história, olhei para o relógio e calculei que ainda havia tempo para sortear outra criança e ter duas histórias no dia. Propus, sorteamos e ouvimos a segunda história.

No dia seguinte, quando fiz a chamada na roda para a hora da história, Sa (se eu não me engano) me olha bem sincera (como lhe é peculiar), levanta a mão e diz:

– Hoje pode ter só uma história? Demora muito ouvir duas histórias. A gente pode contar uma história e depois brincar?

Vamos juntos?

HE não demonstra muito interesse pelas atividades que envolvem desenho. Não me lembro dele procurando espontaneamente os ateliês de desenho durante o ano.

Hoje peguei a caixa de giz de lousa e sentei no pátio externo e comecei a desenhar com as crianças. HE larga a motoca e pára aí meu lado:

– Lili, desenha um peixe pra mim?

Desenhei.

– Desenha outro peixe?

Comecei a desenhar. Tinha acabado de ouvir meu parceiro de trabalho convidar uma criança a desenhar junto com ele e convidei também HE a desenhar junto comigo:

– Enquanto eu desenho o rabo, você pode ir desenhando o olho e a boca?

Ele desenhou.

– Olha, ele está bravo! É uma boca de bravo! – ele falou.

Pediu outro. Fizemos ao lado.

Pediu outro. Falei:

Vamos trocar? Agora eu desenho a boca e o olho e você desenha o rabo?

– Parece que este está feliz, né? – falei.

Levantei-me para me despedir de uma criança. Era hora da saída. Quando voltei, ele está desenhando.

Orgulhosíssimo de seus desenhos! Aí vira pra mim e fala:

– Agora vou desenhar um barco!

E desenhou!

Logo sua mãe chegou e ele foi todo feliz embora.

Cálculo mental

Sa é muito participativa. Quando chego na roda, antes mesmo de todos sentarem, ela já está sentada com a mão levantada. E espera pacientemente sua vez. Ultimamente não tão pacientemente assim: tem reivindicado sua prioridade baseada no cartaz que temos na parede com os nossos combinados. E sempre tem algo pertinente a comentar.

Hoje estávamos nos preparando para ir ao parque e agora o que tenho achado um pouco engraçado é que eles fazem um “auto-sermão”, ou seja, tem sempre uma rodada em que pedem a palavra e falam algo que não podem fazer no parque, tipo jogar areia pra cima, no olho, na boca, no cabelo, etc. Tá virando uma espécie de ritual, que antes me deixava um pouco impaciente, mas agora entendi que faz parte e deixo vir…

Enfim, no meio desse momento, Sa pede a palavra e diz:

– Naquele balanço redondo não pode ir mais de 4.

Ela se referia a um balanço que parece uma espécie de rede que temos no parque e só pode balançar 4 crianças de cada vez.

– E o que acontece se mais crianças quiserem ir? – pergunto.

– Tem que esperar. – ela responde.

Aí para testar mesmo, pergunto:

– E se 6 crianças quiserem ir no balanço, como faz?

Sa pára um tempo. Pensa, pensa… E depois de uma pequena confusão inicial que eu não lembro exatamente como foi, responde:

– Aí 2 crianças vão procurar outro brinquedo e esperar a vez!

Se não se pode vencê-los…

“Quando, na primavera, eu levava para pastar o meu rebanho de cabritos saltitantes e indisciplinados, tentava empurrá-los à minha frente, tocando-os com o chicote, gritando alto e gesticulando, para impedi-los de escapar bruscamente, por um desvio, para um campo de trigo novo. Expulsava-os dali, e lá estavam eles nas moitas saborosas do pomar… pois os cabritos não sabem andar direito, ajuizadamente, como deve ser. Então, eu passava à frente, saltando como eles, e tão depressa, que nem já tinham tempo de escutar o apelo tentador do trigo ou da fruta à beira do caminho; e assim, sem aborrecimentos, levava-os até a margem do rio onde cresciam os amentilhos” (Pedagogia do Bom Senso, p. 66/7).

Esse trecho do livro pedagogia do bom senso me segue desde minha primeira experiência na educação infantil. Vira e mexe ele volta a se fazer presente para mim. Como hoje, como na semana passada, como muito neste ano…

Crianças agitadas em dia de chuva. Normal! Depois de anos de convivência com crianças pequenas na escola, uma das poucas certeza que tenho é a de que as crianças ficam agitadas em dia de chuva. O que é um pouco lógico, se você parar para pensar, pois nesse dia ficam o tempo todo em espaço fechado, a maior parte dentro da sala. Há que se estar preparada para isso! Eu sempre respiro mais fundo antes de entrar na sala nesses dias…

Hoje foi um dia desses. Chuvoso. Conseguiram sair pouco, no período da manhã, antes da chuva. Mas foi pouco. À tarde, minha vizinha de sala havia planejado comer frutas com chocolate com sua turma e nos convidou. Aceitei. Só depois me toquei. Chuva, sem espaço externo e chocolate? Como isso pode dar certo? Mas já tinha aceitado. Resolvemos encarar (digo resolvemos porque meu parceiro de trabalho também sabia do que estava por vir e resolveu encarar junto). Eram duas turmas a serem servidas, as frutas ainda não estavam cortadas, demorou mais tempo do que o previsto e todos tiveram que esperar um pouco mais para comer, repetir… Então juntou a espera, o espaço fechado, a chuva e o chocolate!

Quando voltamos para a sala depois de tudo, eu olhei, todos agitados, tinha algumas opções: caos e barbárie, contenção, agitação organizada (vamos dizer assim, semi-organizada). E foi ali que o trecho da citação fez sentido.

“..passar na frente deles…”

E fizemos uma sequência de brincadeiras agitadas com música na roda: pisa no chicletes, caranguejo anda pra frente, periquito Maracanã, estátua, caveira do relógio (Tumbalacatumba), castelo mal assombrado…

Entre uma brincadeira e outra, os pais foram chegando e no final, os que ficaram estavam tão cansados que pegaram um livro e sentaram para ver.

Se não se pode vencê-los, junte-se a eles!

Tesouro

Um pai chega para buscar a criança. Sempre dão uma olhadinha na planilha para ver como se alimentaram no dia. Conversamos sobre o jantar de hoje. Todos comeram e/ou repetiram.

– Macarronada! Sempre que chegar e ver que todos comeram é porque foi macarronada… – falei.

Outro dia ela chegou em casa falando que comeu tesouro. – falou o pai.

Tesouro?!? – indaguei pensativa.

Sim, ela chegou em casa e falou que a Lili deu tesouro para ela…

– Tesouro?!?

– Ela falou que tinha arroz, cenoura… – vai explicando o pai.

Ah! – como quem diz eureka – é risoto!

O olhar

É uma sexta-feira em que se sai muito cansada após uma semana boa. De retomada da rotina e do resgate de muitas coisas, de nossas vivências anteriores e das minhas vivências anteriores, de outros anos, de outros espaços. De uma retomada necessária porque tem dias em que penso que este não é o meu lugar. E ontem, na roda final, eu respirei fundo, olhei e pensei: não tem outro lugar para se estar senão esse aqui… E aí percebo que olhando tudo o que acontece com este outro foco, tudo muda! Tudo muda! Até o caos de hoje eu vi de maneira diferente! E, assim, as singelezas do cotidiano, antes camufladas nesse caos, surgem assim… puf! diante dos olhos!

E é isso: você sai cansada, mas feliz!

Pequenos encantamentos

Parei. Olhei o que já havia escrito. E fui voltando. Voltando. Voltando.

De repente, por conta do lapso que se forma por causa do tempo em que fiquei sem escrever, estava de novo em 2014. Rememorando pequenos encantamentos que preenchiam de emoção o meu olhar. Lembro de tudo como se tivesse sido ontem.

Da imensidão quase-mar que é uma sala de aula, sempre me perguntei o que me encanta. Ainda me pergunto.

Essa volta foi um reencontro com a professora que eu já fui. E que quero voltar a ser.