pão e rosas

Vivemos mais um momento de greve e reinvindicações de reposição salarial e, principalmente, sobre nossas condições de trabalho. Infelizmente, desde 2010 na rede municipal de Campinas, não vejo muita coisa mudar. Aliás, tenho visto, mas não pra melhor. E este texto do Freinet, “pão e rosas”, sempre volta na minha cabeça neste momento. Lembrei de um texto que escrevi em minha primeira greve. Republico aqui, porque acho que não veio para este blog (foi para um blog específico sobre a greve daquele ano).

 

Pão e rosas

     Freinet dizia que as crianças precisam de pão e rosas. Precisam mesmo. As crianças precisam estar rodeadas de coisas belas, de professoras felizes, de um espaço bonito, de condições para produzirem o belo também. O que nem sempre é possível numa sala lotada com mais de 30 crianças de 3 a 5 anos e somente uma professora. Em nome da segurança (porque essa única professora é responsável por essas 30 crianças), da ordem, da sua própria sanidade, nem sempre temos disposição para oferecer as rosas, muitas vezes nos vemos sendo obrigadas a trabalhar da maneira que não acreditamos e voltando para casa cada vez mais desanimadas por não fazer o que gostaríamos. Cada vez mais vejo professoras doentes, afastadas, estressadas, deprimidas. É porque essa rotina em que somos obrigadas a fazer coisas que não gostaríamos vai nos desanimando aos poucos, nos oprimindo aos poucos.

     É por isso que precisamos dizer BASTA. É por isso que precisamos lutar por nossos direitos, que precisamos dizer a todos em que condições trabalhamos e que queremos ser felizes!

     O nosso movimento também precisa de rosas, de coisas belas que nos inspiram a lutar. 

pao e rosas

Professora devagar. Crianças a mil!

(post desabafo!)

Sim, o ano mal começou, mas a professora já está cansada.

A professora escreveu e apagou e reescreveu e mudou tudo várias vezes. Lá no fundo, a professora está um pouco desanimada e ficou na maior dúvida se deveria começar a reescrever a partir do desânimo ou se deveria focar em outras coisas nesse recomeço.

Mas ela não conseguiu.

Esta professora continua trabalhando com um agrupamento misto. O que quer dizer que trabalha com crianças de 2 a 5 anos. 29 crianças de 2 a 5 anos. Por enquanto, claro. Afinal, sala de aula é igual coração de mãe: sempre cabe mais um.

Só que não! No dia a dia, faz diferença. Numa sala de aula pequena, faz diferença. Na hora de dormir, faz diferença. Na roda de conversa, faz diferença. A quantidade afeta diretamente a qualidade. Qualquer um que entra numa sala de aula sabe disso…

Mas será que é só a quantidade que dificulta? O que mais dificulta? A diferença grande de idade? A sala de aula pequena?

Mas o dia a dia não deixa muitas brechas para o desânimo. Afinal, as crianças estão lá e bem animadas! Muito animadas! A mil por hora! E precisam da professora bem presente. A professora está lá. Desanimada pelas condições, matando um leão a cada dia, colhendo poucos frutos. É claro que acontecem coisas boas a cada dia e é claro que ela sabe valorizar cada pequena coisa que acontece. Mas quando, para cada pequena coisa que acontece é exigido um grande esforço, um esforço às vezes sobrehumano, o corpo está muito cansado para celebrar as alegrias….

Acho que a professora precisa tomar um complexo vitamínico!!!

Avaliação do dia após o futebol

Todos os dias em que vamos ao campinho jogar futebol, na nossa roda final de avaliação do dia chovem reclamações de que não empurraram, machucaram ou não passaram a bola para um ou outro. Na penúltima vez, percebi que precisávamos retomar alguns combinados sobre o jogo para a próxima vez.

Conversamos na roda antes de irmos para o campinho e um resumo da conversa foi essa:

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(este é um registro meio tosquinho porque foi feito junto com a conversa para lembrarmos os pontos-chave do que estávamos combinando. Depois, no livro da vida, ficou mais claro e organizado – quando der eu coloco aqui)

Então, vamos lá:

  1. Futebol é bola no chão e chutar. Não pode pegar com a mão. Nem ajeitar com a mão.
  2. Tem que tentar pegar a bola do outro sem machucar o colega, sem empurrar. Quem faz jogadas que machucam o colega no jogo da tv leva cartão amarelo. E se for muito grave, cartão vermelho.
  3. O objetivo do jogo é tentar fazer gol. Não é ficar correndo com a bola de um lado para o outro.
  4. A gente tem que tentar pegar a bola do colega e não ficar parado esperando alguém dar a bola para a gente. (e esse era o maior motivo das reclamações no fim do dia sobre o futebol, que eles ficavam esperando e ninguém passava a bola para eles!

Aí conversamos, combinamos e fomos jogar.

No fim do dia, na roda de avaliação todos foram contando coisas que deram ou não certo, gostaram ou não do dia e ninguém falava nada do futebol. Aí não aguentei e perguntei:

– Gente, como foi o jogo de futebol hoje? Ninguém falou nada…

– Ah! Foi tudo certo… – diz LuEma, com a cara mais tranquila do mundo, como se isso fosse o normal que acontecesse sempre desde o início do ano!

Avaliação do dia

Fazer uma avaliação do dia não é simples. Requer você lembrar o que fez e, dentre as rememorações, dizer o que foi bom ou ruim, o que gostou e não gostou.

Agora imagina isso com muuuuuuuitas crianças pequenas (de 3 e 4 anos) juntas.

Bem, no início eles lembravam das atividades. E diziam coisas do tipo “Foi legal ir no brinquedão”, por exemplo.

E lembravam das coisas chatas. Do fulano que bateu/empurrou/mordeu/beliscou/assoprou/lambeu/etc o siclano. Era uma roda de lavagem de roupa suja!

Agora, fim de ano, a dinâmica tem mudado muito.

Outro dia, Sa falou:

– Foi legal que eu emprestei a fantasia para a He.

– Como assim?

– A gente tava no brinquedão e ela queria um vestido que eu tava usando. Então eu usei, tirei e depois emprestei para ela.

Percebo que eles têm trazido para a roda juntamente com o momento de lavagem de roupa suja (mas com roupas não tão encardidas) também as pequenas sutilezas e gentilezas do nosso cotidiano, como esta acima.

– Mas eu pedi desculpas!

Um dia como qualquer outro…

– Lili, Fulano me bateu!

Respiro fundo.

– Fulano, você bateu no Ciclano?

– Mas eu pedi desculpas! – me responde prontamente o Fulano.

– Mas eu perguntei se você bateu no Ciclano. – repeti.

– Mas eu pedi desculpas! – me responde novamente.

– Mas eu perguntei se você bateu no Ciclano. – repeti.

– Mas eu pedi desculpas!

– Agora eu não quero saber se você pediu desculpas, agora eu quero saber se você bateu no Ciclano. – repeti, ainda calma e tranquila.

– Bati.

– E o que aconteceu pra você bater nele?

– ……… (não lembro, mas algo simples).

– E pode bater?

– Não.

– Então, como você poderia ter resolvido isso?

– Poderia ter falado com ele.

– Você entendeu o que aconteceu?

– Sim.

– Então, agora sim,  peça desculpas.


Essa cena me trouxe tanto a pensar. Tanto a refletir sobre como é a nossa intervenção no momento dos conflitos….

Medos… e conselhos amigos!

Roda final. Leitura coletiva. O livro Meus Dedinhos.

No final, ela coloca todos os porquinhos para dormir, com um beijinho em cada um.

Segue conversa em que cada um vai contando como fazem para dormir; de uns a mãe conta uma história, de outros também dá beijinhos como no livro.

Jopá diz:

– Eu não durmo na minha cama sozinho. Durmo na cama da minha mãe e do meu pai. Tenho medo do escuro.

Vários também têm e também dizem dormir com os pais. Pergunto se não fica apertado, desconfortável, afinal já são grandes. Não, não fica. Pelo menos para eles.

No dia seguinte, retomamos a conversa. Afinal, sentem medo do que na hora de dormir?

Hele diz:

– De tubarão!

Beni já responde:

– Ué! Mas tubarão só tem na água, não na sua casa!

Yu diz:

De jaca!

– Jacaré? – pergunto.

– Não. Jaca.

– Jaca? Tem certeza? Você tem medo de jaca?

– Tenho.

– Da jaca de comer? Da fruta? Por quê?

Ele não sabia responder. Fiquei pensando se ele disse a primeira coisa que lhe veio na cabeça, ou se só concordou com o que eu perguntei ou se teria mesmo medo da fruta. Confesso que não é uma fruta muito fotogênica mesmo!

Enquanto eu tentava entender, uma outra já emendava a solução:

– É só você não dormir embaixo de um pé de jaca, oras!

Professora, tia, mãe…

 “Ensinar é profissão que envolve certa tarefa, certa militância, certa especificidade no seu cumprimento enquanto ser tia é viver uma relação de parentesco. Ser professora implica assumir uma profissão enquanto não se é tia por profissão. Se pode ser tio ou tia geograficamente ou afetivamente distante dos sobrinhos, mas não se pode ser autenticamente professora, mesmo num trabalho a longa distância, “longe” dos alunos.

     O processo de ensinar, que implica o de educar e vice-versa, envolve a “paixão de conhecer” que nos insere numa busca prazerosa, ainda que nada fácil. Por isso é que uma das razões da necessidade da ousadia de quem se quer fazer professora, educadora, é a disposição pela briga justa, lúcida, em defesa de seus direitos.

     Recusar a identificação da figura do professor com a da tia não significa, de modo algum, diminuir ou menosprezar a figura da tia, da mesma forma como aceitar a identificação não traduz nenhuma valorização à lei. Significa, pelo contrário, retirar algo fundamental do professor: sua responsabilidade profissional de que faz parte a exigência política por sua formação permanente”.

Paulo Freire. Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar.