Da busca do outro

Ainda entre sentimentos dúbios após o adiamento das aulas presenciais, recebo no fim da tarde de sexta-feira uma foto de uma criança me mostrando um desenho que havia feito de um Homem Aranha. E com essa criança que só conheço virtualmente, iniciei uma conversa sobre nossos super heróis preferidos e de outros desenhos que ele poderia fazer. Terminei essa pequena conversa através de áudios do whatsapp pensando nessa nossa necessidade humana de buscar o outro e nessa necessidade humana de um aluno buscar sua professora…

Dos pequenos encontros que alimentavam…

A partir do retorno das famílias sobre os melhores dias e horários, iniciamos encontros regulares pelo google Meet. Nos primeiros encontros, aproveitávamos para matar um pouco das saudades que sentíamos. As crianças queriam contar novidades, mostrar brinquedos ou construções que fizeram em casa. Também aprendíamos a usar o aplicativo juntos, como abrir e fechar o microfone e também a organizar melhor nossa interação, como falar um de cada vez, aguardar a vez de falar. Aos poucos fomos nos apropriando desse espaço novo para todos e adicionando outras atividades para esse momento, como uma brincadeira ou uma história. Apresento a seguir um breve resumo das nossas interações pelo meet. De 22 de junho a 20 de junho o encontro acontecia às segundas-feiras, 18 horas. Depois desta data, passamos para as quartas-feiras, no mesmo horário. A partir de 19 de agosto, passamos a fazer 2 encontros semanais, um na quarta no fim da tarde e outro na quinta pela manhã para garantir a participação dos que não conseguiam a noite. A partir da metade de setembro, mudamos o encontro de quinta de manhã para segunda de manhã, pois passamos a realizar reuniões de formação nesse horário. E a partir de dezembro, voltamos a realizar 1 encontro por semana, na quarta às 18h. Apresento a seguir os dias em que foram realizados os encontros pelo meet, as atividades que realizados e as crianças que participaram em cada encontro. Até hoje, foram 38 encontros com as crianças pelo Google Meet, contando com os 3 que fizemos em maio, chegam a 41.

Fui aprendendo a cada encontro pelo meet com as poucas crianças que conseguiam participar, a potência da interação e o quanto podíamos construir a partir da brincadeira coletiva ainda que distante. O formato encontro foi sendo construído cada vez que ele acontecia. Embora sempre trouxesse uma proposta de brincadeira, as crianças muitas vezes pediam para repetir a brincadeira da semana anterior e cada vez que ela se repetia, acontecia de forma diferente. 

A acolhida, o olhar e a escuta se faziam presentes nesses encontros. Havia um tempo para contar do que estavam fazendo em casa, das construções, dos brinquedos novos, mostrar animais, contar do dente que caiu, dar dicas de filmes e desenhos que gostam. Havia dificuldades técnicas em alguns momentos. Quando falavam todos ao mesmo tempo ficava um barulho danado. Abrir e fechar o microfone. Mas fomos nos acertando. Nesse movimento, a interação acontecia. Perguntavam, comentavam, lembravam de outros assuntos. Não era a mesma coisa que acontecia na escola. Mas foi a forma como fomos inventando e construindo essas novas possibilidades de interação e de brincadeira neste contexto de isolamento.

Uma questão que se colocou a todo o momento, nesses mais de 40 encontros pelo meet ao longo do ano foi: Como ampliar a participação das crianças? Como garantir o acesso de todas as crianças?

Eu, o outro e eu mesmo

Encontro pelo meet da última semana. Algumas poucas crianças chegam animadas.  Entre elas, uma que, por participar semanalmente, usa o aplicativo sem grandes dificuldades. Ouvido atento ao que os amigos contam, olhar atento ao que os amigos mostram. Em um determinado momento, observo essa criança inquieta em sua cadeira. Se mexe, faz caretas, dá risadas. Imaginei que tinha aberto outra aba e estava assistindo alguma coisa. Fico curiosa e pergunto:

– O que está vendo por aí?

Do alto de seus 5 anos, me responde:

– Eu tô vendo eu mesmo na tela.

A mensagem

Nesta semana, apareceu-me pelo facebook um pequeno filme1 que falava sobre a pedagogia Freinet contada pelo próprio Célestin Freinet. Totalmente em francês, assisti encantada pelas imagens e, sobretudo, por ouvir pela primeira vez sua voz narrando seu itinerário docente.

Um dia depois, junto com Ruth Joffily que, além de parceira de trabalho e amiga agora também é minha professora de francês, assisti novamente ao filme, agora com mais atenção ao que dizia, traduzindo juntas palavra a palavra dita por Freinet há exatos 60 anos.

Quando eu retornei da guerra 14-18 eu tinha sido seriamente ferido.

Eu não podia falar, sobretudo não podia falar numa sala de aula.

E então, eu procurei soluções… eu tateei durante muito tempo, eu fiz experiências…

Na chamada do filme, um destaque para o fato de Freinet construir sua pedagogia após um período de grande crise causada pela primeira guerra. O filme lembrava que agora também vivemos outra grande crise. Ficava suspensa ali no ar a pergunta: que escola vamos construir a partir dessa crise que vivemos?

Penso que, de uma maneira totalmente diferente de Freinet na época, também não podemos falar numa sala de aula. Segui pensando com aquela voz de Freinet ecoando em minha cabeça… “Eu procurei soluções… eu tateei durante muito tempo, eu fiz experiências…”. A noite, quando nos encontramos na “Casa da Ruth”, em vários momentos ela nos lembrou desse trecho: “Olha só! Ele dizendo que tateou muito tempo… fez muitas experiências… algumas bem sucedidas… algumas mal sucedidas… mas foi aprendendo com elas… construindo seu trabalho a partir delas… Não desistiu! Nós também não podemos desanimar… Se uma tentativa não deu certo no contato com as crianças, tentamos outra e tentaremos outra até conseguirmos”.

É isso! Sigo lembrando da presença amorosa de Freinet em 2004, quando iniciei a docência… Em 2011, quando iniciei a docência na escola pública. Agora em 2020, quando me encontro perdida, fora da escola, procurando como ser professora, Freinet aparece novamente a dar-me as mãos… Assim como também sigo de mãos dadas com Ruth, Roseane, Viviani, Denise, Marisa, Dayane, Patrícia, tantas, tantas… Que escola vamos construir ainda não sabemos, mas seguimos juntas nas experimentações, descobertas e aprendizados…

1 O filme pode ser acessado em https://youtu.be/0CKDEd-GCaQ

Das pequenas alegrias de me sentir professora longe da escola que eu conheço

Ainda com toda a adrenalina no corpo após o encontro, sentei rapidamente para escrever. Sim, porque preciso escrever desta alegria que é poder encontrar com algumas crianças mais ao vivo. São poucas que aparecem, nem todas conseguem, mas as que estão lá estão tão felizes em estarem juntas que essa alegria é contagiante!

Eu estava ansiosa. Estávamos fazendo um encontro semanal ao final do dia (das 18h às 19h), mas pela primeira vez havia marcado um encontro pela manhã (das 10h às 11h) a pedido de uma família que não conseguia participar à tarde. Fiquei preocupada que ninguém viesse, depois fiquei preocupada que só ela viesse, mas vieram 5 crianças.

Alguns começam um pouco tímidos, principalmente os meninos que participavam pela primeira vez. Outros que participam dos encontros com mais frequência já chegaram ansiosos em contar e mostrar construções que faziam com lego, contar da mudança de casa, mostram brinquedos. Depois desse primeiro momento de acolhida e conversa, começamos uma brincadeira de estátua. Era de manhã, coloquei uma música mais calma para despertarem… Começam a dançar ainda timidamente, mas com o passar das músicas vou vendo pela tela os pulos, as danças, as risadas, a diversão em ver as estátuas dos amigos. De repente, um pede “Agora um rock!”. Assim, pega desprevenida escolho o melhor rock que conheço: David Bowie – Starman. Eles continuam dançando animados, mas logo a mesma criança que pediu retruca “Isso não é rock!”. “Como não? É o melhor rock que eu conheço!” – respondo olhando para minha filha ao lado e ao olhá-la lembro do melhor rock que ela gosta: Raul. Agora sim, agradou a todos! Uma criança corre, pega uma guitarrinha de brinquedo e toca dançando do outro lado da tela.

Outro lado da tela. Em junho, depois de 3 meses em quarentena longe da escola, mas em diálogo e interação direta com as famílias e crianças através de um grupo de whatsapp em que trocávamos quase que diariamente fotos, vídeos, áudios e sentindo muita falta de um contato olho no olho propus que fizéssemos também encontros virtuais via google meet. Mesmo sabendo das dificuldades que algumas famílias teriam para o acesso, não consegui imaginar outra forma de estar mais presente na vida das crianças e de possibilitar a interação, conversa e brincadeiras entre eles. Pensava nas crianças em casa, nas famílias se virando para se organizarem sem a escola, pensava nas crianças que não têm irmãos, primos por perto, de repente sendo privadas da convivência e interação entre seus iguais. Imaginava os medos que poderiam estar sentindo sendo privados da rotina que conheciam e os deixavam seguros. É claro que estavam seguros com a família, mas há algo que a escola traz que só ela traz: a interação com seus iguais, com outras crianças e essa relação entre iguais produz algo que só acontece ali. Certamente seria bem diferente se pudéssemos estar construindo os entendimentos desse tempo em que estamos vivendo juntos, na escola. Serem privadas daquele espaço que era tão delas, que existia por elas e para elas não deve estar sendo fácil para as crianças. Quis ser um porto seguro em meio a esse mar de turbulências que poderiam estar vivendo. Achei que precisavam de mim. Mas de cada encontro saio pensando que sou eu quem preciso delas! São eles que me fazem continuar a ser professora.

Imersa na ventania buscando forças para manter-se em pé

(trecho de uma carta escrita a um outro professor)

As interações com as crianças foram ficando cada vez mais limitadas nesse período. Cada dia penso em novas estratégias para chegar até eles, mas todas elas passam pelas famílias, que estão cada vez atarefadas e vivendo suas próprias dificuldades, incertezas, angústias. Muitas voltaram a trabalhar, muitas não pararam de trabalhar nesse período e a falta da escola se torna uma dificuldade a mais em seus cotidianos, e muitas ainda perderam seus trabalhos. Em muitos contatos que faço com as famílias me relatam a dificuldade em manter a alimentação, por exemplo. Nesse contexto todo, percebo que muitos não  encontram momentos para fazer chegar até as crianças o que tenho enviado. Ou, se fazem chegar, não me dão um retorno e fico sem saber como está sendo. Bem, essa está sendo a minha angústia no momento. Vou percebendo que não sei ser professora sem o contato direto com as crianças a me dizer a todo momento se o que estamos fazendo faz sentido ou não. Não sei encaminhar um trabalho sem ouvi-los, sem perceber o que os interessa, o que os motiva.  Acabei de escrever minha dissertação para o Mestrado onde investigo como aprendi a ser professora sendo professora… E aprendi na interação: com minhas colegas de trabalho e com as crianças no dia a dia. Com essa escola que conheço e  na qual me formei em exercício. Com a escola em suspensão, perdi essas duas coisas… E no meio de todas as minhas incertezas, dúvidas e angústias, estou precisando reaprender a ser professora de criança pequena longe delas. Confesso que não sei os caminhos a seguir, mas ainda assim, continuo caminhando. Continuo enviando as propostas, as conversas, os vídeos e as histórias. Mais ou menos como garrafinhas no mar.  “Quem sabe chega em alguém? Aí já está valendo!” – penso.

                   Então vou contar o que venho fazendo com as garrafinhas que vocês enviaram a mim: as histórias e atividades!

Fiz um pequeno videozinho explicando de onde vinham as histórias e enviei às famílias. Combinei com eles que enviaria as histórias 3 vezes por semana (2ª/4ª/6ª). E fui mandando. Comecei com as histórias em áudio: disse a eles que poderiam ouvir antes de dormir. Achei melhor começar por elas porque não precisariam estar vendo as imagens e também poderia colocar a imaginação para funcionar, acionar outros sentidos! Imagino que estão assistindo outras coisas na TV ou celular. Na primeira história, nada. Nem um comentário sequer. Assim foram na segunda, na terceira. Quando chegou a quarta (E o dente ainda doía), na segunda-feira dessa semana, veio uma fotinho de uma criança feliz ouvindo a história. No dia seguinte, o relato de uma outra mãe contando que a criança adorou já que está com um dentinho prestes a cair… Na quinta história (A lenda da concha), veio também um comentário da mesma mãe contando que achou linda a história. Bem, parece que as garrafinhas soltas no mar começam a encontrar seus destinos finalmente…

     Também adicionei as histórias no site da turma para que possam acessá-las posteriormente. Ou quem sabe até cheguem a outras crianças. No domingo, recebi um email contando que uma criança da minha turma do ano passado havia se inscrito nesse novo canal onde tenho organizado todo o material desse período. Entrei em contato com a mãe dele que me contou sobre como ele estava feliz de ver as coisas da turma e da escola que ele tanto ama. Ainda não criou vínculos com a nova escola, pois ficou somente 1 mês nela neste ano. Então, olha só: as garrafinhas lançadas ao mar chegam onde nem esperamos! Apesar de ainda achar pouco, isso me anima a continuar.

Do início de uma quarentena que virou um afastamento de um ano da escola…

No dia 20 de março de 2020, quando se anunciava um período de fechamento das escolas e isolamento social por tempo indeterminado, atualizei o grupo de whatsapp que já mantinha com os familiares da turma desde o início do ano para compartilhar pequenas cenas do cotidiano e recados rápidos do dia a dia e pedi que mantivéssemos, a partir daquele momento, aquele grupo para trocas e interações entre as crianças. 

Era a sexta-feira da última semana em que ainda estivemos na escola com as crianças. Nessa semana, de 16 a 20 de março, já estávamos nos preparando para viver um tempo em isolamento. Não sabíamos quanto tempo seria.  Eu imaginei que seria pouco, um mês no máximo. Ainda não tinha clareza da dimensão do que viveríamos. Estava preocupada naquele momento em manter os laços de afeto entre as crianças nesse tempo longe da escola. Parte dessa turma havia chegado neste ano e passou pouco mais de um mês juntos (de fevereiro a meados de março), mas a outra parte dessa turma seguia junta desde o ano passado. Sabia que era composta de crianças apaixonadas por aquela escola, por aquele espaço, por aqueles amigos e, sim, também pela professora. Não queria perder isso naquele período em que ficaríamos longe da escola. 

Naquele um mês e meio em que estávamos na escola, no início do ano letivo, já vínhamos seguindo cheios de planos e propostas. O bom de seguir com parte da turma que já conhece bem a escola é que retornam cheias de ideias, cheias de vontade de fazer o que já conhecem. Isso é uma vantagem às novas que chegam e vão conhecendo a escola em movimento, junto com as demais. Nesse pouco tempo em que estivemos juntos, já havíamos escolhido através de uma votação o nome da nossa turma, já havíamos iniciado nossos registros no livro da vida, já organizávamos nossa rotina com o auxílio das placas, fazíamos ateliês com trabalhos diversificados dentro de nossa sala e começávamos a compartilhar nossas novidades na roda de conversa. Também havíamos retomado o uso da composteira no início de março e plantado num copo alguns feijões que uma das crianças havia trazido para a turma. Por conta disso, nas duas primeiras semanas de março, havíamos limpado um canteiro da horta da escola, remexido na terra. Nossa intenção era plantar os pés de feijão na horta quando crescessem um pouco no copo. Fomos pegos no meio desta proposta pelo fechamento das escolas a partir de 23 de março.

No dia 20 de março, último dia em que estive na escola, levei o vaso com os feijões para casa para cuidar deles no período em que estivéssemos fora. Nesse mesmo dia, fiz um vídeo contando para a turma sobre isso, sugeri que plantassem algo em casa a partir das sementes que tivessem disponíveis em casa para depois plantarmos em nossa horta quando retornássemos para a escola.

– Obrigada!

Já iniciamos há mais de um mês, mas ela começou hoje. A turma toda já estava chegando em pleno vapor, pegando os brinquedos e materiais e dispondo nas mesas, organizando o espaço para as atividades do dia. Ela parou na porta com um misto de medo e curiosidade. Convidei-a a entrar, a olhar o que havia disposto nas mesas e ela entrou. Ficou. Nem se despediu dos pais. A turma acolheu-a rápido, mostrou onde era o banheiro, onde lavava a mão, bebia água…

Mais tarde, no parque, consigo me aproximar mais e conversar melhor com ela.

– Você ia antes em outra escola? – perguntei.

– Sim!

– Você se lembra qual era o nome da escola?

– Não. Mas eu já fui em muitas escolas…

– É mesmo? Que legal! Sabe… acho que você gostar muito desta escola… aqui tem muitas coisas legais que podemos fazer…

Ela só olha bem para mim e diz:

– Obrigada!

– Este é nosso Livro da Vida!

Chego na roda de conversa com um cadernão nas mãos. Turma quase completa: 27 crianças! Mostro e digo:

– Turma, este será o nosso caderno de memórias… Vocês sabem o que são memórias?

– São coisas que a gente quer lembrar… – respondeu um.

– Igual quando a gente fez a Cápsula do Tempo… – respondeu outro.

“Isso foi no ano passado! Que bom que lembraram” – pensei e disse logo em seguida:

– isso mesmo! E o que a gente guardou na Cápsula do Tempo?

– Coisas que a gente gostava… – vários disseram.

– Então nesse caderno, nós iremos guardar coisas que a gente gosta, que a gente quer lembrar. Será o Livro da Vida da nossa turma.

Logo que termino de falar, abro o caderno e vou folheando as páginas todas em branco… Uma criança se espanta ao meu lado:

– Mas não tem nada aí!

– Claro que não! – respondo. – Nós é que iremos escrever nossas memórias daqui pra frente!