Cena aleatória cotidiana

Estávamos plantando o abacaxi na horta. Criança1 cavava a terra com uma canequinha de metal. Criança2 queria usar a caneca da Criança1. Criança3 estava ao lado das duas crianças com um copinho descartável de iogurte. A Professora observava a cena acontecendo e ajudava as demais crianças a cavarem a terra para abrigar a coroa de abacaxi.

Criança2 começou a chorar porque a Criança1 não queria lhe dar a caneca. Criança3 oferece seu copinho de iogurte para a Criança2. Ela recusa e continua chorando pedindo pela canequinha. Criança1 dizia que ela havia pego a caneca e estava usando. A Professora continuava observando o desenrolar da história. Criança3 tira a canequinha da mão da Criança1 e entrega para a Criança2. A Professora intervém:

-Nós não vamos tirar da mão dele. Está com ele e ele precisa emprestar para a Criança2.

Criança2 chora ainda mais alto. Professora pergunta para a Criança1:

-Você pode emprestar essa canequinha para a Criança2?

Criança1 fecha a cara, franze a testa e diz sério para a Professora:

-Mas eu fui até o tanque de areia e peguei essa canequinha para eu usar. Por que ele não pode ir até lá pegar outra?

Criança2 já se antecipa:

-Eu não quero ir lá buscar outra, eu quero essa que está com ele! – e continua chorando.

-Mas esta ele está usando agora… Você tem duas opções: ir até o tanque de areia e pegar outra caneca ou esperar ele terminar de usar e depois ele te empresta.

-Eu prefiro esperar.

E se acalmou. Parou o choro e esperou. Logo depois, Criança1 emprestou-lhe a caneca e ele cavou um pouco para plantarmos a segunda coroa de abacaxi.

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Encanto

A turma assistia um dos filmes na sessão de cineclube de hoje. Mostrava uma dança indígena. Eram duas fileiras: duas mulheres adultas na frente, 3 crianças atrás. Elas davam pequenos pulinhos e, em determinado tempo, se alternavam nas fileiras e depois retornavam no local inicial e começava tudo de novo. E se repetia, repetia, repetia… As crianças assistiram fascinadas num silêncio atento.

De repente, uma criança fala, como se suspirando:

-Nossa, Lili, eles sabem fazer coisas que nós não conseguimos fazer…

Só concordei e continuamos hipnotizados naquela dança. As mulheres e meninas estavam com os rostos desenhados. Um tempo depois, a mesma criança continuou:

-Se eu fosse indígena eu também ia querer desenhar no meu rosto, mas eu ia querer desenhar animais!

Entre pequenos e grandes

Estávamos no parque. Eu balançava uma criança e observava a cena que acontecia bem na minha frente. Várias crianças brincavam num trepa-trepa, entre elas uma das crianças mais velhas da turma e uma das mais novinhas. A mais velha subia, prendia os pés e virava de cabeça para baixo. A mais nova não desgrudava os olhos e vibrava maravilhada, gritando:

– Maneiro!!! Você é muito maneiro!!!

Ambos estavam muito felizes! Sorriam, gargalhavam!

A cena de repetiu algumas vezes, sempre com a mesma empolgação.

Lições de desapego

Desde que adquirimos uma maleta de lego para a nossa sala, as crianças têm tido importantes lições diárias de desapego. Elas despendem longo tempo pensando, montando, criando, encaixando e, quando terminam, querem manter a sua obra. Só que, quando terminam e se encaminham para outra mesa de trabalho, outras crianças ocupam seus lugares e precisam das peças para sua obra. Longas negociações…

Ontem uma criança me chegou suplicante ao final do dia:

– Eu não queria desmontar… É o meu primeiro carrinho bom…

– Então brinca mais um pouco com ele, mas no final do dia iremos desmontar…

Hoje ela chegou e montou um novo carrinho muito parecido com o de ontem. No final do dia, quando estávamos organizando a sala, ela veio me mostrar e pediu:

– Você pode tirar uma foto? É que eu quero me lembrar dele.

Boneca negra

Na semana passada compramos duas bonecas negras para a sala. Quando ela as viu, seus olhos brilharam. Por uma semana seguida, chegava e se dirigia para a caixa das bonecas e pegava uma delas para brincar.

Num desses dias havia outra criança com a boneca quando ela chegou. Ela chegou até mim e disse:

– Ela está com a minha boneca!

– Aquela boneca não é sua, você sabe, todas as bonecas são de todas as crianças da turma. Todas podem brincar com ela – respondo a ela.

– Eu sei – ela me responde de imediato – mas eu gosto mais daquela porque ela é parecida comigo.

Restaurante

Restaurante

Estava no parque olhando o caderno de recado das crianças e, ao mesmo tempo, observava uma criança brincando no tanque de areia fazendo comidinhas. Minuciosamente ele pegava pratinhos, copinhos, folhas, pedras e cozinhava. Havia outras crianças cozinhando por perto, mas ele preparava sozinho suas comidas. Entre um caderno e outro eu o observava. Entre um caderno e outro ele também me observava e eu não havia percebido. Estava um pouco afastada, mas num momento em que levantei o olhar estava ele na minha frente com um prato de comida a me oferecer.

“O que é?” – perguntei.

“Pizza!” – ele respondeu e eu aceitei e comi.

“Estranho comer comidinha de parque com máscara” – foi o que pensei enquanto comia. Ele aguardava ansiosamente a minha degustação. Olhar atento em mim enquanto eu comia.

“Está uma delícia!” – falei e devolvi o prato.

“E agora, o que você quer?” – ele perguntou. Fui perguntando o que ele tinha para me oferecer, e assim fui comendo, pizza, macarrão, sorvete, suco, milk shake, bolo. 

Sempre do mesmo jeito. Ele me perguntando o que eu queria, eu perguntando o que ele tinha, ele enumerando o que poderia oferecer, eu escolhendo algo, ele indo até o tanque de areia, preparando e depois voltando. Sempre parado na minha frente enquanto eu comia, esperando a minha reação. Os cadernos foram ficando de lado, entrei nessa brincadeira com ele. As demais crianças brincavam e corriam ao nosso redor em suas próprias brincadeiras. Só ouvia o murmurinho; seguia no restaurante com ele. Depois de muito tempo que eu não sei dizer o quanto, mas depois de muito vai-e-vem e de muito comer, disse a ele que já estava satisfeita e perguntei quanto era. Ele me olhou confuso. Falei a ele que quando vamos num restaurante temos que pagar no final. Ele dá uma gargalhada e diz

“Não é nada, não! Foi de graça!”

E saiu.