Vocabulário

É hora da saída e estamos no parque esperando as famílias chegarem para buscar as crianças. Uma mãe chega e encontra a filha descalça brincando. Olha para os pés da filha e diz:

– Nossa, filha, que pé limpo!!!

A filha olha os próprios pés e pergunta espantada para a mãe:

– Tá?!?!?!?!?!?

A mãe dá um sorrisinho de leve e responde:

– Filha, isso se chama ironia!

Conversa de corpo inteiro

Estávamos no refeitório. Todos comiam bolo. Passo por entre as mesas servindo quem alguém ainda não havia comido quando percebo uma criança colocando apressadamente a máscara e vindo em minha direção, ainda mastigando o bolo…

– Minha mãe achou uma barata em casa! – me contou enquanto terminava de colocar a máscara, ainda mastigando e engolindo o bolo. – Ela estava assim, ó!

E imediatamente se joga no chão, barriga para cima, balançando as pernas e braços!

Shorts jeans

Quando ela abriu a mochila para trocar a máscara viu o shorts jeans.

-Posso colocar? – perguntou imediatamente.

-Não. Só trocamos de roupa quando é necessário. – respondi.

Guardou o shorts na mochila e seguimos para o parque. Um tempo depois a encontro toda molhada. Foi beber água e aparentemente havia caído uma garrafa de água em sua roupa. Olho e digo:

-Pode se trocar!

Depois de trocada a roupa, a encontro andando em direção à nossa sala caminhando toda satisfeita.

Quando sentamos em roda para ouvir uma história no final do dia, ela se volta para a turma e diz:

– Quem está de shorts jeans levanta a mão!

Rituais

Brinco comigo mesma que primeiro dia de aula tem que ter história dos três porquinhos e música do jacaré, como uma espécie de ritual de início. Nesse ano tão atrapalhado, tentei cantar a música do jacaré no nosso primeiro encontro pelo meet, fiz um clipe da música e enviei pelo whatsapp para as famílias e crianças, mas não foi a mesma coisa… Não é a mesma coisa!

Nas atrapalhações do retorno presencial, entre medos e alegrias, me esqueci da música do jacaré. Semana passada nos sentamos juntos e pela primeira vez neste ano enxerguei uma roda. Era desajeitada, meio torta, mas estávamos juntos ali – crianças e professora em sintonia. Imediatamente a música do jacaré me veio na cabeça.

-Vamos cantar a música do jacaré? – pergunto. – A gente ainda não cantou juntos nesse ano…

-Mas eu conheço essa música! Eu vi com a minha mãe! – uma criança bem ao meu lado respondeu.

-Cantamos cada um na sua casa, mas agora podemos cantar juntos de verdade!

E cantamos! Foi como se o ano tivesse finalmente começado!

Sonhos compartilhados

Estamos em roda e após terminar de contar uma história que tem como personagem principal um macaco, várias crianças tinham histórias com macaco para compartilhar: um já deu comida, outro tinha visto perto de casa. Uma criança levanta a mão e já avisa:

-Quero contar uma coisa, mas não é sobre macaco!

Peço que aguarde o assunto sobre macacos terminar e ela aguarda sua vez com paciência. Quando chega, ela conta:

-Lili, eu sonhei que estava voando em um unicórnio!

Repetição

No fim do dia anterior, eu havia pego um livro e lido para eles do lado de fora da sala. No meio da história, havia uma ilustração que, para uma criança, soou muito assustadora. Na hora ele saiu correndo. Depois voltou. Quando terminou a história, pediu para ler de novo e, quando chegou naquela página, correu de novo. Virou uma brincadeira! Que depois da história lida pela segunda vez, foi aceita por outra criança que pegou o livro da minha mão, abriu na página assustadora e saiu correndo atrás do menino gerando grandes risadas!

No fim do dia seguinte, pego um outro livro para ler e inicio a roda dentro da sala. Ao ver que a leitura iria começar, o menino pede:

– Podemos ir lá fora?

– Você quer fazer a roda lá fora?

– Sim, porque se eu ficar com medo, posso correr de novo!