– Obrigada!

Já iniciamos há mais de um mês, mas ela começou hoje. A turma toda já estava chegando em pleno vapor, pegando os brinquedos e materiais e dispondo nas mesas, organizando o espaço para as atividades do dia. Ela parou na porta com um misto de medo e curiosidade. Convidei-a a entrar, a olhar o que havia disposto nas mesas e ela entrou. Ficou. Nem se despediu dos pais. A turma acolheu-a rápido, mostrou onde era o banheiro, onde lavava a mão, bebia água…

Mais tarde, no parque, consigo me aproximar mais e conversar melhor com ela.

– Você ia antes em outra escola? – perguntei.

– Sim!

– Você se lembra qual era o nome da escola?

– Não. Mas eu já fui em muitas escolas…

– É mesmo? Que legal! Sabe… acho que você gostar muito desta escola… aqui tem muitas coisas legais que podemos fazer…

Ela só olha bem para mim e diz:

– Obrigada!

– Este é nosso Livro da Vida!

Chego na roda de conversa com um cadernão nas mãos. Turma quase completa: 27 crianças! Mostro e digo:

– Turma, este será o nosso caderno de memórias… Vocês sabem o que são memórias?

– São coisas que a gente quer lembrar… – respondeu um.

– Igual quando a gente fez a Cápsula do Tempo… – respondeu outro.

“Isso foi no ano passado! Que bom que lembraram” – pensei e disse logo em seguida:

– isso mesmo! E o que a gente guardou na Cápsula do Tempo?

– Coisas que a gente gostava… – vários disseram.

– Então nesse caderno, nós iremos guardar coisas que a gente gosta, que a gente quer lembrar. Será o Livro da Vida da nossa turma.

Logo que termino de falar, abro o caderno e vou folheando as páginas todas em branco… Uma criança se espanta ao meu lado:

– Mas não tem nada aí!

– Claro que não! – respondo. – Nós é que iremos escrever nossas memórias daqui pra frente!

O lugar

Jo chegou quietinho. É um dos mais novos da turma. Passou os primeiros meses de aula me perguntando a quase todo momento que horas iria embora. Aproveitava o dia,  mas sempre que podia, sinalizava que preveria estar em casa. Seguia sempre perdidinho atrás de mim para onde quer que eu fosse.

Ontem mal havia chegado, foi direto para o armário de brinquedos e pegou um carrinho. Chega até mim e me chama:

– Onde é o lugar dos carrinhos?

Fala baixinho. Não entendi direito. Imaginei que talvez fosse a sua famosa pergunta sobre o horário da saída.

– O que, Jo?

– Onde é o lugar dos carrinhos? É ali? – me mostra, apontando para o lugar onde tenho organizado um espaço para brincar com os carrinhos, às vezes, fazendo uma pista com fita crepe no chão.

Era segunda-feira. Tínhamos acabado de chegar. Alguns inclusive ainda estavam chegando. Já ia chamar para iniciar a roda. Quando eu levantei a cabeça e olhei a sala, já haviam vários ateliês organizados. Numa mesa, algumas crianças brincavam com um jogo de montar. Em outra, já haviam levado os lápis e canetinha e estavam sentados desenhando. E Jo estava ali do meu lado, aguardando a minha resposta. Então eu olhei para ele e respondi:

– Sim, Jo, ali é o lugar de brincar com os carrinhos.

A roda ficou para depois

Aprendendo sempre

Estávamos no parque. Ao lado de um túnel feito de manilhas de concreto. Eu conversava com um grupo de crianças, brincávamos, batucávamos com gravetos nas manilhas, cantávamos juntos.

Num segundo de distração minha, uma criança passou pelo túnel e saiu bem na minha frente. Meu susto foi genuíno. Eu brinquei:

– Você fez uma mágica? Você estava lá e agora está aqui?

Ele deu risada… Gargalhou!

E a brincadeira virou outra!

Agora acabou a cantoria e resolveram passar de um lado para o outro do túnel e me chamam a todo momento, esperando meu espanto e pela minha pergunta sobre a magia.

Passamos um tempo assim. Eu e eles aprendendo a encontrar a magia do cotidiano.

Conversa de ônibus

No ônibus, voltando de um passeio passando pelo Centro de Campinas, mostro uma escola cujo prédio é bem antigo.

– Olhem, neste prédio bem antigo funciona uma escola. – eu digo.

Quando olho novamente para o prédio, me arrependo um pouco de chamar a atenção deles para isso. O prédio tinha as paredes sujas, com pixações, vidros quebrados.

Uma criança olha um pouco aterrorizada:

– Nossa! Isso é uma escola?

– É diferente da nossa… – outro diz.

Respondo que sim.

– Lili, você não acha que esta escola está meio… destruída?

– Sim, está, né? – respondo meio sem jeito.

– Por que está deste jeito? – perguntou outro.

Nossa… tanta coisa passa pela minha cabeça… me limito a responder:

– Acho que não estão cuidando bem dela…

– Eu não queria estudar aí…

Crianças brincando

Desde o primeiro dia de aula, uma me cobrou:

– Lili, nessa sala não tem bonecas?

Então providenciei bonecas e panelinhas e elas finalmente chegaram. Vou para a roda com uma caixa enorme e digo que tenho novidades: alguns brinquedos novos. Os olhos de todos brilham ansiosos. Abri a caixa e tirei uma boneca. Alguns vibram, alguns suspiram decepcionados:

– Ahhhhhhh! Brinquedo de menina…

Naquele intervalo em que eu respirava fundo e tomava fôlego para dizer algo sobre isso, um menino se antecipa e diz:

– Mas não tem brinquedo de menino e brinquedo de menina!

Confesso que olhei meio espantada, afinal, em 15 anos de rodas de conversa com crianças pequenas, isso nunca havia ocorrido. Mas também com um sorrisinho disfarçado de alegria no canto da boca por eu não precisar iniciar essa conversa. Continuo :

– É mesmo! Os brinquedos foram feitos para brincar… por que você acha que esse é de menina? É por que é um neném e são as mulheres que tem nenens?

Eles ficam quietos. Alguns concordam com a cabeça, mas não dizem nada… Continuo :

– Mas e depois que o neném nasce? Quem ajuda a cuidar dele? O pai também não ajuda a cuidar?

Volto para a caixa e tiro em seguida o pacote de panelinhas. Alguns vibram, outros se mantém quietos. Outros seguem desanimados.

– E comida? Todo mundo faz comida, ne? – pergunto.

Seguem contando quem faz a comida em casa: a mãe, o pai, o tio, a avó… terminam a conversa animados. Saem da roda todos em direção aos brinquedos, todos. Querem cortar, preparar a comidinha, dar para as bonecas. Todos juntos. Crianças brincando!

Eu com o outro

Eu penso, planejo, imagino, mas as coisas só se concretizam em diálogo com o outro. Nesse sentido, poderia dizer que o outro completa o meu gesto, ou melhor, dá sentido a ele. A resposta do outro, com palavras ou com ações, diz para mim sobre o que eu faço. Sempre.

Em dia chuvoso gosto de levar o violão, para uma cantoria coletiva ou brincadeiras com música. Comecei atendendo pedidos: o jacaré é amigo ele é, dona aranha. Depois foi Sai Preguiça. Aí me pediram a da Velha que tinha nove filhas. Já tinha procurado a cifra e não havia achado. Comecei a tocar usando a minha “fórmula mágica” do Lá, Mi e Ré que tento usar quando não sei a cifra e na maioria das vezes funciona… Mas para mim me soava um pouco estranho, então parei no meio, virei o violão e segui cantando e batucando atrás. Mas me esqueci que não estava sozinha ali. Uma criança, aparentemente distraída com outra coisa, levanta a cabeça e imediatamente me diz:

– Não pára não. Faz com o violão.

Paro admirada.

– O quê? Você prefere com o violão? Mas eu achei que tava esquisito…

– Não. Tava melhor.

Segui com o violão.